Lucas estava folheando a sua agenda, e tentando memorizar os seus compromissos do dia seguinte. Eram muitos, e ele já estava cansado só de pensar na quantidade de lugares que teria que passar. A noite já tinha tomado lugar no céu, e a chuva caia com direito a trovões e raios. Os raios eram como flashes de uma camêra fotográfica e iluminavam a casa toda atravessando até as cortinas mais grossas e escuras. O barulho dos trovões estavam mais altos que o normal, e Lucas já estava começando a se assustar com a tesmpestade fora da sua casa.
Quase toda a sua vida ele morou com os seus pais e com a sua cadela, Jolie. Ela era de uma raça indefinida e tinha um amor imensurável por qualquer pessoa que a acariciasse. Faria 1 ano dali a umas semanas que ele tinha embalado todas as suas coisas e se mudado para um apartamento na região serrana do Rio de Janeiro. Foi difícil, mas foi necessário. Seu sonho era crescer na sua profissão, de ser reconhecido, e ali estava uma oportunidade.
Ele levantou-se e abriu uma fresta da cortina. A chuva estava mesmo muito forte. Da casa onde morava agora conseguia ver as árvores balançando pra lá e pra cá, e elas ameaçavam a cair a qualquer momento. Naquele final de semana, ele trouxe a sua cadela Jolie para passar uma estadia com ele. A saudade era muito grande, e dava nitidamente para perceber que ela também sentia a sua falta. Mas naquele momento em que a chuva caía, os raios eram fortes e os trovões muito altos, ela não parecia estar muito feliz. Estava aninhada no canto do sofá toda encolhida, tremendo e choramingando. Lucas saiu de perto da janela e foi acariciá-la. Ele deitou-se ao seu lado e ela se ajeitou até que os dois caíram no sono.
Pípí pípí pípí
O barulho constante e irritante fez Lucas e Jolie acordarem. Ele ainda grogue de sono, percebeu que a chuva só tinha aumentado de barulho, mas deu mais importância naquele momento de achar o barulho irritante e voltar a dormir. Era o seu celular apitando, uma nova mensagem. Ele piscou os olhos várias vezes para poder enxergar o que estava escrito.
''Lucas, você está bem? Eu estava na internet e vi que a região perto da onde você mora está toda alagada e aconteceram vários deslizamentos de terra. Não consigo te ligar, me liga urgente. Cristiano.''
Lucas parou para pensar sobre a mensagem e dirigiu-se a janela que tava vista para a frente da sua casa, não tinha nada de anormal. Pensou ser mais uma brincadeira boba de seu irmão e voltou para o sofá aninhando Jolie ao seu lado. Segundos depois já estava dormindo novamente.
Vidro se quebrando, estacas de madeira lascando e choro foram os barulhos que Jolie escutava em seu sonho. Não, não era um sonho, era um pesadelo. E pior, um pesadelo real. Ela abriu os olhos e viu que estava sozinha no sofá. Olhou ao seu redor e viu uma janela da casa toda quebrada e quando olhou para cima, o teto estava desabando. Seus olhos procuravam por Lucas, mas seu corpo frágil e pequeno não se movia, ele tinha entrado em estado de choque. A única coisa que ela queria no momento era encontrar o seu dono fiel. Com muita força, conseguiu se levantar, mas era difícil manter o equilíbrio da maneira que o corpo dela tremia. Quarto, sala, cozinha, banheiro e nada dele. Ela vasculhou novamente todos os cômodos e nada. A casa estava bem diferente, tudo estava no chão, e a água já tinha tomado conta das suas patas e estava quase chegando ao seu corpo. A porta da casa estava aberta por um motivo desconhecido, e ainda com o objetivo de encontrar o seu dono, Jolie correu porta afora.
A chuva do lado de fora era muito mais intensa, e em questão de segundos ela já estava encharcada. Os raios continuavam a iluminar o céu, e os trovões continuavam a fazer barulhos muito altos. Mesmo com a visão turva, ela continuava procurando na escuridão, e contava com a ajuda do seu olfato para isso. Mas estava complicado, o cheiro de barro era muito forte. Jolie podia ouvir a metros de distância choro de pessoas agoniadas. Ela queria ajuda-las, mas antes teria que encontrar o seu dono. O seu único dono.
A noite parecia eterna, e a escuridão e a chuva não cessavam. Suas patinhas estavam sangrando porque pedaços de vidro era o que mais tinha no chão. Mas Jolie era forte mentalmente, ela teria que achá-lo.
Jolie fungou o nariz e sentiu um cheiro familiar. Tentou seguir aquele cheiro, e cada vez mais ele parecia estar mais próximo. Depois de um longo tempo ela avistou um cabelo conhecido. Era ele, era o Lucas. Correu com todas as suas forças e chegou ao local onde ele estava. Jolie estava confusa, ela sabia que era o seu dono, mas ele parecia tão diferente. Estava deitado no chão, de barriga para cima, e seus olhos estavam abertos e vidrados. Suas mãos estavam diferentes, e o seu peito não se movia mais para cima e para baixo para ela tentar sincronizar sua respiração com a dele.
A pobre cachorrinha estava pensando que aquilo só seria mais uma das suas inúmeras brincadeiras, dali uns minutos, ele levantaria todo alegre e a assustaria. Brincadeira de finge-de-morto. Ela adorava e demostrava isso com umas lambidas no rosto. Aninhou a sua cabeça perto do pescoço dele, e deu umas lambidas no seu rosto antes de deitar e fechar os olhos.
Jolie sentiu um par de mãos pegar o seu corpo e levanta-la. Por um momento pensou que fosse Lucas que finalmente tinha dado um fim aquela brincadeira sem graça que estava durando mais tempo que o normal. Mas quando abriu os olhos, viu que era um outro homem que tinha um capacete na cabeça. Ele a deixou um pouco mais longe de Lucas, e ela não entendeu o porquê. O corpo ainda continuava na mesma posição, e Jolie estremeceu..
Os homens de capacete levaram o seu dono. Por alguma razão, deixaram Jolie ali. Ela pensou que Lucas a qualquer momento voltaria para buscá-la, afinal, ele a amava e já tinha dito isso várias vezes. E quem ama, não esquece. Ele não esqueceria dela, e ela tinha mais que certeza absoluta disso.
Provavelmente já se tinham passado vários dias desde que levaram Lucas. Jolie sabia disso porque a fome que ela sentia era tanto que ela não conseguia mais nem levantar. Os machucados da sua patinha estavam cada vez mais expostos e doíam muito, mas muito mesmo. Ela estava confusa, porque ele ainda não tinha voltado para pegá-la? Fechou os olhos novamente e desejou sentir as suas mãos acariciando o seu pelo.
Um homem de capacete a avistou e deu-lhe água e um pedaço de chocolate que trazia no bolso. Ela comeu em 2 segundos. Ele coçava a cabeça, um gesto que os humanos faziam quando não entendiam o que estava acontecendo muito bem. Pegou uma coisa pequena e preta dentro do bolso, levou essa coisa a orelha e começou a falar. O homem de capacete abaixou-se e acariciou a sua cabeça.
''Pobre cadelinha'' - ele murmurou.
Um tempo depois mais homens de capacete apareceram, e um deles espetou uma cruz marrom do lado da cachorrinha, e rezou uma oração. O mesmo homem que a tinha acariciado, perguntou se ela queria ir pra casa. Ela entendia essas palavras, entendia o seu significado. Mas ela não se mexeu. Apesar de querer ir pra casa, ela sabia que a casa que ele se referia não tinha o Lucas.
Ela só iria pra casa nos braços do seu dono, o seu único e fiel dono.
Os homens acariciaram Jolie mais uma vez, e foram se distanciando cada vez mais, deixando água e comida ao seu lado.
A partir dali, ela não sabia o que deveria fazer. Só sentia que deveria esperá-lo voltar. Ele iria voltar, porque não voltaria? Sim, ela esperaria ele voltar. Ela esperaria a próxima vez que brincaria com ele novamente, mesmo que para isso acontecer ela tivesse que ir para o paraíso, Jolie iria.



